A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA - TESTEMUNHO NA PRIMEIRA PESSOA
"SEGUNDA-FEIRA – O DIA EM QUE TUDO SERÁ DECIDIDO.
Faltam apenas sete dias e, à medida que o tempo passa, vou limpando as lágrimas e interiorizando os momentos e as palavras difíceis que guardei, durante uma vida, em gavetas mentais que fechei e nunca quis abrir. Em cada uma, foi escondendo tudo aquilo que não consegui partilhar. Por vergonha, por pudor, por insegurança, por culpa ou para protecção dos meus rebentos, calei os maus-tratos e desisti da vida e de mim. Com o tempo, fui aprendendo a sofrer em silêncio e tornei-me reclusa na minha própria casa. Durante anos foi assim. Apesar dos gritos, das cenas de pancadaria, das idas ao Hospital, ninguém se importou. Ou, então, fingiram não se importar. E eu, encalhada na dor que o tempo não curava, nem apagava, rendia-me à evidência da minha má sorte. Uma sorte cruel, madrasta, que me tolheu - durante longos anos - a vontade de dar um murro na mesa e dizer: basta! O isolamento e a solidão fizeram o resto. Afundaram-me numa angústia cada vez maior e, sem dar por isso, anulei-me como mulher, como mãe e como esposa.
E quando tudo desmoronava à minha volta e não esperava mais nada, eis que surge uma mão amiga, com palavras sensatas, para me devolver algum alento e pintar, com cores vivas, um sentido para a Vida. Aos poucos, fui saindo da penumbra e recuperei a confiança necessária para ultrapassar o colapso físico e emocional em que me encontrava. E um dia – um dia de particular assomo de coragem e determinação – decidi libertar-me definitivamente. Nesse dia, que o tempo não apagará, saí de casa, apresentei queixa e pus fim à maldade e tirania de alguém que dizia amar-me. Não haverá mais falsas juras de amor, nem desculpas sucessivas, nem silêncios, nem opressões, nem ameaças ou expedientes que consigam iludir-me. Na próxima segunda-feira, o silêncio será quebrado e as palavras resgatadas. E, com elas, direi tudo de forma incessante - até conseguir escoar todos os silêncios. Nessa altura, sei que o sofrimento, que outrora me dilacerou, ficará mais ténue e a dor menos funda, os meus filhos recuperarão o sorriso e o brilho do olhar e o tempo encarregar-se-á do resto: de apagar os vincos cavados no corpo e na alma: Segunda-feira – o dia em que tudo será decidido. "
Autora: Uma Mulher com nome e que faz parte da História.

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